sexta-feira, 10 de setembro de 2010

1994: quando Robson juntou Mourinho, Villas-Boas e Domingos

O F.C. Porto-Sp. Braga, o primeiro jogo grande da Liga 2010/11, permitirá o reencontro entre André Villas-Boas e Domingos Paciência. Dois treinadores com um passado em comum, iniciado na casa do Dragão. Na história partilhada, destaca-se o ano de 1994, quando Bobby Robson chegou à Invicta.

Sir Bobby Robson, falecido há pouco mais de um ano, logrou juntar três homens que marcam o presente do futebol português. José Mourinho viajou com o treinador inglês, do Sporting para o F.C. Porto. Na Invicta, encontrou Domingos como ponta-de-lança e Villas-Boas como vizinho sedento de oportunidades.

No próximo sábado, no Estádio do Dragão, a marca do «Gentleman» sorridente e bem-disposto estará bem vincada. O F.C. Porto de André Villas-Boas, nesta altura líder e participante da Liga Europa, recebe o melhor Sp. Braga de sempre, orientado por Domingos Paciência e dividido entre duas frentes, uma delas a inusitada fase de grupos da Liga dos Campeões.

Quarteto de luxo até 1997

Villas-Boas, primeiro como mero adepto, habituou-se a vibrar com os golos de Domingos. Então jogador, o actual técnico arsenalista viu Robson chegar ao banco do F.C. Porto, com um prodígio chamado José Mourinho. Pouco depois, começaria a cruzar-se com André Villas-Boas, vizinho que convenceu o inglês a dar-lhe uma oportunidade no clube portista.

O quarteto de luxo manteria o contacto regular até 1997. Três anos de ensinamentos comuns, de crescimento sob a orientação inimitável de Bobby Robson. Quando o treinador partiu para Barcelona como bicampeão, Mourinho foi com ele. Domingos seguiu para o Tenerife e Villas-Boas ficou nas camadas jovens do F.C. Porto, onde acabava de conquistar o título nacional de juvenis, como adjunto de Ilídio Vale.

O reencontro antes de Mourinho

Domingos Paciência ficou dois anos nas Canárias, enquanto André Villas-Boas dividia o seu tempo entre a formação do F.C. Porto e os indispensáveis cursos de treinador. Em 2001, o actual técnico do Sp. Braga pendura as chuteiras e o timoneiro dos dragões regressa de uma experiência exótica nas Ilhas Virgens Britânicas. Mourinho, agora a solo, chega à Invicta para iniciar um período dourado dos dragões.

José Mourinho reencontra Villas-Boas e aproveita o seu potencial como observador de adversários. Domingos dá os primeiros passos como treinador nas camadas jovens do F.C. Porto, até chegar ao banco da equipa B (2004/05), logo após a partida desta dupla para o Chelsea.

Universidade do futebol em Coimbra

O Estádio do Dragão vai receber dois homens da casa, embora Paciência tenha dado passos por conta própria e esteja disposto a colocar sentimentos de lado. Foi hipótese para a sucessão a Jesualdo Ferreira, mas o vínculo ao Sp. Braga fez Pinto da Costa avançar com determinação para André Villas-Boas.

Sete meses após assumir o primeiro cargo como treinador principal, na Académica, Villas-Boas recebia o convite para orientar o clube do seu coração. Para trás, ficara a parceria com Mourinho, no F.C. Porto, Chelsea e Inter. Um dos principais adversários seria Domingos, outro técnico que passou pela Universidade de futebol em Coimbra, antes de chegar a um emblema que se fez grande.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

F.C. Porto: Fernando, um Polvo que voltou a ser livre

Fernando está mais feliz. Voltou a ter liberdade em campo, provando que tem qualidade para desempenhar outras funções que não defensivas. O médio do F.C. Porto soltou amarras e convenceu André Villas-Boas. Nele, reside parte do sucesso deste novo Dragão.

O Polvo, este que não adivinha resultados, aproveitou a oportunidade para saciar um desejo interior: marcar um golo. Na semana passada, frente ao Genk, estreou-se a marcar pelo F.C. Porto, em jogos oficiais. Tinha feito o mesmo na pré-época. O último pontapé certeiro remontava a 1 de Fevereiro de 2008, então no E. Amadora. Sim, dois anos e meio!

À terceira época de dragão ao peito, o primeiro tento com carimbo oficial. Em Portugal, marcara apenas de grande penalidade, num E. Amadora-Sp. Braga. Reapareceu nesta pré-temporada, com um golo oficioso, de cabeça. Finalmente, na recepção ao Genk, um pontapé de longe, a quebrar o enguiço.

«O meu foi bom mas o dele também»

Laionel assistiu ao jogo pela televisão e sorriu. O extremo da Académica, que recebera os parabéns de Fernando pelo golaço frente ao Benfica, correu a devolver o elogio. «Liguei-lhe e dei-lhe os parabéns, claro, logo depois do jogo. Ficou muito feliz. O meu golo foi bom, mas o dele também, foi um belo remate de longe», diz o jogador, ao Maisfutebol.

Do outro lado do Atlântico, uma reacção estupefacta. Sim, Fernando Reges marcou um golo! «A sério? Que bom! Ele nunca foi de marcar, é muito mais de entregar a bola. Fico muito feliz, porque é menino com muita qualidade, um rapaz educado, de família humilde», explica Edson Alves, treinador das camadas jovens do Vila Nova de Goiás, clube que transferiu o jogador para o F.C. Porto.

Fernando Reges é mais que um homem de sapa. Aliás, no actual esquema táctico do F.C. Porto, pertencem ao brasileiro os principais movimentos de desequilíbrio, a partir do sector intermediário.

Um Polvo com tentáculos longos

Laionel, amigo de Fernando desde os tempos do Vila Nova, confirma a felicidade do Polvo: «Ele agora é um jogador com mais liberdade, está mais adiantado no terreno. Quem o conhece há muito, como eu, sabe que ele tem a qualidade para atacar que está a demonstrar agora. No Brasil, como as equipas jogam com dois volantes, esses jogadores têm mais liberdade para atacar à vez. Acho que o Fernando está mais feliz agora, porque está mais livre.»

«Aqui no Brasil, ele jogava como volante ou segundo volante. É um jogador versátil, com muita qualidade, falta-lhe apenas mais alguma experiência e chegará à selecção do Brasil. É apenas uma questão de tempo. E ele merece», conclui o antigo técnico, Edson Alves, em diálogo com o Maisfutebol.

O F.C. Porto comprou Fernando em 2007, por 700 mil euros. Revelado pelo Vila Nova do Goiás, captou a atenção na selecção sub-20 do Brasil e tem justificado a aposta. Recuperando um vídeo do Polvo, com imagens antes da chegada a Portugal, confirma-se que a propensão ofensiva sempre esteve lá, guardada. Agora, pode ser livre.

F.C. Porto: Fernando, um Polvo que voltou a ser livre

Fernando está mais feliz. Voltou a ter liberdade em campo, provando que tem qualidade para desempenhar outras funções que não defensivas. O médio do F.C. Porto soltou amarras e convenceu André Villas-Boas. Nele, reside parte do sucesso deste novo Dragão.

O Polvo, este que não adivinha resultados, aproveitou a oportunidade para saciar um desejo interior: marcar um golo. Na semana passada, frente ao Genk, estreou-se a marcar pelo F.C. Porto, em jogos oficiais. Tinha feito o mesmo na pré-época. O último pontapé certeiro remontava a 1 de Fevereiro de 2008, então no E. Amadora. Sim, dois anos e meio!

À terceira época de dragão ao peito, o primeiro tento com carimbo oficial. Em Portugal, marcara apenas de grande penalidade, num E. Amadora-Sp. Braga. Reapareceu nesta pré-temporada, com um golo oficioso, de cabeça. Finalmente, na recepção ao Genk, um pontapé de longe, a quebrar o enguiço.

«O meu foi bom mas o dele também»

Laionel assistiu ao jogo pela televisão e sorriu. O extremo da Académica, que recebera os parabéns de Fernando pelo golaço frente ao Benfica, correu a devolver o elogio. «Liguei-lhe e dei-lhe os parabéns, claro, logo depois do jogo. Ficou muito feliz. O meu golo foi bom, mas o dele também, foi um belo remate de longe», diz o jogador, ao Maisfutebol.

Do outro lado do Atlântico, uma reacção estupefacta. Sim, Fernando Reges marcou um golo! «A sério? Que bom! Ele nunca foi de marcar, é muito mais de entregar a bola. Fico muito feliz, porque é menino com muita qualidade, um rapaz educado, de família humilde», explica Edson Alves, treinador das camadas jovens do Vila Nova de Goiás, clube que transferiu o jogador para o F.C. Porto.

Fernando Reges é mais que um homem de sapa. Aliás, no actual esquema táctico do F.C. Porto, pertencem ao brasileiro os principais movimentos de desequilíbrio, a partir do sector intermediário.

Um Polvo com tentáculos longos

Laionel, amigo de Fernando desde os tempos do Vila Nova, confirma a felicidade do Polvo: «Ele agora é um jogador com mais liberdade, está mais adiantado no terreno. Quem o conhece há muito, como eu, sabe que ele tem a qualidade para atacar que está a demonstrar agora. No Brasil, como as equipas jogam com dois volantes, esses jogadores têm mais liberdade para atacar à vez. Acho que o Fernando está mais feliz agora, porque está mais livre.»

«Aqui no Brasil, ele jogava como volante ou segundo volante. É um jogador versátil, com muita qualidade, falta-lhe apenas mais alguma experiência e chegará à selecção do Brasil. É apenas uma questão de tempo. E ele merece», conclui o antigo técnico, Edson Alves, em diálogo com o Maisfutebol.

O F.C. Porto comprou Fernando em 2007, por 700 mil euros. Revelado pelo Vila Nova do Goiás, captou a atenção na selecção sub-20 do Brasil e tem justificado a aposta. Recuperando um vídeo do Polvo, com imagens antes da chegada a Portugal, confirma-se que a propensão ofensiva sempre esteve lá, guardada. Agora, pode ser livre.

Chipre: um Jardel parado, o talentoso Effrem e pouco mais

Entre a meia centena de portugueses que faz carreira no futebol do Chipre, o Maisfutebol nomeou dois espiões com enquadramento privilegiado. O adversário de Portugal convocou 7 jogadores do Omonia e 6 de APOEL de Nicósia.

Edgar Marcelino passou pelo Omonia e Hélio Pinto joga no APOEL. Bruno Aguiar, o único luso a alinhar na equipa que mais abastece a selecção, está impedido de falar. O médio explicou-nos isso mesmo, de forma delicada.

«O Omonia é um clube muito complicado. Até contratou os melhores jogadores cipriotas só para satisfazer os adeptos. Estive lá e quis sair, por causa das confusões. Aliás, aqui não há muito profissionalismo, nos dirigentes e treinadores», desabafa Edgar Marcelino, actualmente no APOP. Hélio Pinto assina por baixo.

«Konstantinou não se mexe»

Entre estes dois clubes forma-se o núcleo duro da selecção que vai defrontar Portugal, nesta sexta-feira. Michalis Konstantinou é a referência ofensiva, o mais reputado entre os cipriotas, apesar do cansaço provocado pelos 32 anos. «Parece o Jardel dos tempos do Sporting. Mas mesmo assim, o Jardel resolvia, nessa altura. O Konstantinou não se mexe, não sei se aguenta 60 minutos, mas tem experiência, claro», diz Marcelino.

Hélio Pinto garante que os cipriotas fizeram poucas perguntas sobre Portugal. «Eles sabem tudo, conhecem os jogadores todos. Só brincámos no balneário com o nosso lateral, a dizer-lhe que ia levar com o Ronaldo, ele ficou assustado. Mas afinal não», diz o médio, entre gargalhadas. Marios Elia e Savvas Poursaitides, seus colegas de equipa, são os laterais do Chipre.

«O Constantinos Charalambides é o capitão do APOEL, é um 10 com qualidade e bate bem livres. Mas, no geral, com a qualidade que Portugal tem, dá para ganhar. O Chipre é mais forte em casa, no ano passado surpreendeu a Itália, mas fora são acessíveis. Se Portugal mantiver a concentração e não relaxar, vence», sentencia Hélio Pinto, formado no Benfica.

«Não se comparam aos portugueses»

«O futebol no Chipre tem melhorado nos últimos anos, com a presença dos estrangeiros, se bem que nem todos têm qualidade. Ainda assim, o talento dos jogadores do Chipre não se compara aos portugueses. A selecção tem jogadores rápidos, essencialmente isso, mas são limitados no aspecto táctico e o pior é mesmo a defesa», garante Edgar Marcelino.

O extremo, formado no Sporting, consegue apenas elogiar, de forma natural, um jogador do Chipre. «Para mim, Georgios Efrem é o jogador que tem mais qualidade, porque passou pelas escolas do Arsenal», conclui Marcelino.

Hélio fica, Marcelino pensa sair

Hélio Pinto foi um dos primeiros portugueses a chegar ao Chipre. Hoje em dia, são mais de cinquenta. O médio ofensivo, actualmente com 26 anos, sente-se feliz no APOEL de Nicósia. «Nos últimos tempos, sempre que saio à rua, encontro um português ou um brasileiro. Foi o que mudou desde que cheguei, ao início éramos poucos. Estou bem aqui e quero ficar onde me sinto bem», diz ao Maisfutebol.

Edgar Marcelino sente o oposto. Ficou marcado pela passagem amarga pelo Omonia, esteve seis meses em Espanha mas voltou ao Chipre no ano passado, para jogar pelo APOP. Uma lesão grave adiou a concretização do desejo: sair. «Agora penso recuperar e ver o que surge em Janeiro. Podia ter ido para o Rapid de Viena, mas fiz uma rotura e comecei apenas a treinar agora. Voltar a Portugal? Até prescindia do dinheiro, mas apostam pouco nos portugueses. Voltar para perder desportiva e financeiramente, não», remata o extremo de 25 anos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Incrível Hulk: a força de vinte pessoas num luto goleador

Incrível, este Hulk. Seis golos em quatro jogos para um talento que atrai emoções num arranque de temporada impressionante. Entre o drama e o regresso à selecção do Brasil, o avançado do F.C. Porto deixa promessas para uma temporada de explosão.

Dragões no topo da Liga, com a Supertaça na vitrina e a fase de grupos da Liga Europa no horizonte. André Villas-Boas silenciou críticos, encontrou alternativas para Bruno Alves e Raul Meireles. Mutações profundas na forma de ser e estar deste F.C. Porto. Para além dos reforços, emerge Hulk, vida nova após castigo prolongado.

O aviso chegara na pré-época: três golos em igual número de particulares. Eis o cerne da questão, incontornável na análise ao fenómeno. Entre fortuna e fama, surge uma família que condiciona emocionalmente um jogador. A alcunha anuncia um super-héroi, as circunstâncias revelam a humanidade do profissional de futebol.

Um mês entre duas crianças

Os adeptos contornam o tema, jornalistas procuram repetir a teoria: vida pessoal e profissional não se misturam. Contudo, saltam à vida desarmada as oscilações, os amuos repentinos, as fases douradas. Nem sempre relacionadas com questões desportivas.

Por isso, importa referir que Hulk não joga por ele, mas por mais vinte pessoas. Não é caso raro, saliente-se. Porém, em momentos de tristeza, tudo se concentra nele. Cada golo seu é o golo dos familiares que também vivem o luto dramático. A morte de uma sobrinha, com pouco mais de um ano, abafou o regresso do avançado à selecção do Brasil.

Um mês antes, após bela pré-temporada, Hulk foi ao Brasil pelo nascimento do segundo filho. O crescimento da prole sugestiona casa nova na Invicta, mudança a concretizar em breve. Do outro lado do Atlântico, em Campina Grande, o Incrível já colocara duas dezenas de familiares a habitar num espaço de luxo e conforto, a vivenda onde a sobrinha Alicya viria a falecer, por afogamento, num momento de desatenção. Circunstâncias terríveis a motivar luto profundo.

O luto, a selecção e os golos

Hulk voltou ao Brasil em Agosto, com um golo na bagagem (penalty frente à Naval) e um cenário de tristeza à espera. No regresso, passou a jogar por ele, pela sobrinha e pelos familiares que só sorriem com uma festa sua, nos relvados.

Falhou metade da eliminatória como Genk mas compensou com um «hat-trick» no Dragão. Perdeu a recepção ao Beira Mar (3-0) mas deu a vitória frente ao Rio Ave (0-2), com mais dois golos. Cinco em quatro dias, aliás. Segue-se a selecção, agora orientada por Mano Menezes.

O avançado do F.C. Porto regressa ao «escrete» para não mais sair. É essa a sua ambição. Aos 24 anos, terceira época de dragão ao peito, colocou a sua alcunha na boca de adeptos europeus e mesmo brasileiros. Hulk casou-se com os golos.

domingo, 29 de agosto de 2010

F.C. Porto-Genk, 4-2: Lágrimas vindas do céu na história do Incrível Hat-trick Hulk

Incrível ou «hat-trick» Hulk? Fica a sugestão, aguardando novos episódios da série goleadora do avançado brasileiro. Três golos de bola parada na recepção ao Genk (4-2), confirmando a presença do F.C. Porto na fase de grupos da Liga Europa. Vossen bisou sem equilibrar a eliminatória (7-2 no total). Fernando, mais ofensivo que nunca, completou a cena.

A delicadeza do tema motiva algum recato. Contudo, quando a homenagem toca o coração dos adeptos, que nem acompanharam os passos da criança em questão, merece entrar na história. A história do Incrível Hulk, uma corrida pessoal rumo à baliza contrária, com propósito nobre.

Hulk falhara o Genk pela morte da sobrinha. Viajou para o Brasil sem esconder a tristeza. O F.C. Porto, sensibilizado, deu-lhe todo o tempo do Mundo e dedicou-lhe o triunfo na Bélgica. Com a eliminatória resolvida, o brasileiro voltou aos relvados. Correu, fintou, falhou até marcar o golo que tanto procurara. Perdeu um castigo máximo mas terminou o jogo com um «hat-trick».

A surpresa e a dedicatória

As lágrimas vindas do céu, em forma de chuva, caíram no rosto de Hulk quando ele marcou o primeiro (37m), ergueu as mãos e dedicou o momento à sobrinha malograda. Para trás, ficara um penalty falhado, por si conquistado, e um golo do Genk que surpreendeu o Dragão.

A análise parece redutora, mas para quem não viu, acredite que tudo andou à volta deste Incrível com nome de herói de banda desenhada. Vossen, que marcara em antecipação a Rolando (22m), baixava a cabeça perante a incapacidade para igualar o adversário directo.

Hulk foi pela direita e pelo centro, pegou na bola e tentou criar. Porém, o «hat-trick» chegaria com o esférico imóvel. Em dois castigos máximos e igual número de livres directos, o internacional brasileiro marcou três golos. No segundo penalty (59m), provou que não é só matéria bruta. Atirou em jeito e não em força. Antes e depois (63m), de bola parada, recorreu à violência para bater Koteles.

Otamendi a ver, centrais a tremer

O F.C. Porto apresentou mais três novidades. Beto discreto na baliza (as redes portistas balançaram pela primeira vez, esta época), Souza em bom plano no apoio a Fernando, Ruben Micael sem brilhar na zona de construção. Hulk regressou ao onze e encaixou num 4x4x2 apresentado como sistema alternativo.

O Genk, com 0-3 na eliminatória, veio com equipa de recurso. Mudaram-se alguns nomes, sem afectar a determinação. A defesa portista tremeu e voltou a denotar alguma desconcentração. Com Otamendi, o internacional argentino que sucede a Bruno Alves, a ver.

Otamendi assistiu ao jogo, a par de 33.512 espectadores. Não houve transmissão televisiva, porque a aposta passa por um Dragão cheio e as propostas não compensavam. Assim, nem todos viram o tento inaugural de Vossen. Nem o penalty falhado logo depois por Hulk. Nem a compensação do brasileiro (37m), a garantir a igualdade com um pontapé rasteiro e potente, na conversão de um livre directo.

Fernando também marca

O F.C. Porto regressou das cabines com 1-1 no marcador e o 4x2x3x1 no papel. Souza aproximou-se de Fernando, o médio defensivo que andava demasiado afastado da baliza contrária. Aliás, nunca marcara com a camisola portista, em jogos oficiais. Deixou a promessa frente ao Ajax e fez a festa na recepção ao Genk, com mais um pontapé de longe, desta vez com culpas para Koteles.

Bola cá, bola lá, a vantagem azul e branca durou escassos quatro minutos. O golo do empate de Vossen (57m) durou muito menos. Segundos após bom voo do avançado, em mais uma antecipação aos centrais portistas, Moutinho conquistou um castigo máximo e permitiu o bis de Hulk. Com a sobrinha na memória do Incrível e a fase de grupos no horizonte do F.C. Porto, o «hat-trick» do brasileiro não foi mais que um belo final de festa. Nova bomba, de livre, com a ajuda do guarda-redes do Genk. 7-2 na eliminatória. Categórico.

Helton: a braçadeira como prémio em troca da baliza inviolada

Helton herdou a braçadeira de capitão do F.C. Porto, face à saída de Bruno Alves para o Zenit, e tem justificado a aposta com várias exibições de bom nível. Aos 32 anos, o brasileiro convence os adeptos com um arranque de temporada à prova de golos.

Em quatro compromissos oficiais, Helton manteve a baliza portista inviolada. Na Supertaça, frente ao Benfica, o brasileiro fez os concorrentes directos perderam parte das esperanças. Mais uma vez, o F.C. Porto foi ao mercado contratar um guarda-redes. Kieszek juntou-se ao Beto no leque de alternativas, mas a baliza continua entregue ao mesmo dono.

«O Helton está a atravessar mais um grande momento no F.C. Porto. Recebeu um prémio do treinador e da direcção, ao passar a usar a braçadeira de capitão. Penso que está a retribuir», começa por dizer Marival Gomes, tio e procurador do guarda-redes, ao Maisfutebol.

Frente a Benfica, Naval 1º de Maio e Genk, Helton acumulou defesas de elevado grau de dificuldade, contribuindo de forma decisiva para o desfecho das partidas. Na recepção ao Beira Mar, o brasileiro teve menos trabalho mas voltou a demonstrar uma segurança assinalável, uma concentração que convenceu os adeptos mais críticos em relação ao brasileiro.

«Cinco anos, quatro vezes campeão»

Depois de Vítor Baía, o F.C. Porto volta a colocar a braçadeira de capitão no braço de um guarda-redes. «O Helton é dos mais antigos no plantel e tem demonstrado sempre respeito e profissionalismo, mesmo quando não jogou. Quando chegou, ele ficou como reserva do Vítor Baía, mas isso é um orgulho para qualquer um. Ruim é ser reserva da equipa da nossa rua», brinca Marival Gomes.

«Nos cinco anos de F.C. Porto, o Helton foi quatro vezes campeão e quer voltar a ser. Quanto à selecção, teremos de esperar para ver. O Mano Menezes chamou o David Luiz e o Hulk, craques que despontam em Portugal. Às vezes o adepto brasileiro não sabe tanto, por causa da distância, mas este ano os jogos do campeonato português estão a passar no Brasil e isso ajuda. Se o Helton fosse naturalizado português, estaria na vossa selecção. No Brasil, é mais política», desabafa o procurador do guarda-redes.

A defesa azul e branca perdeu Bruno Alves, Maicon e Rolando procuram adaptar-se e formar uma dupla coesa. Enquanto decorre o processo, com Otamendi a caminho, Helton vai resolvendo as questões mais bicudas.

Sérgio Pinto, portista e ex-Schalke: «Vou torcer pelo Benfica»

Sérgio Pinto, médio português que representa actualmente o Hannover, acedeu ao pedido do Maisfutebol e descreveu a actual situação do Schalke04. O jogador luso representou o adversário do Benfica, entre 1999 e 2004.

Perspectivando um duelo escaldante na fase de grupos da Liga dos Campeões, Sérgio Pinto esquece rivalidades, até o seu passado no Schalke, e promete torcer pelo Benfica no confronto em solo germânico. «Se tiver oportunidade, irei ao estádio ver o jogo e claro que torcerei pelo Benfica. Sou portista mas, antes de mais, português. Para além disso, os pontos darão jeito para o ranking, para Portugal voltar a ter três equipas na Champions.

«Penso que o Schalke vai sentir dificuldades esta época, no campeonato e na Champions. Por acaso, vamos lá jogar no sábado. O treinador não está satisfeito, já se fizeram muitas mudanças no plantel e ainda devem chegar mais três ou quatro jogadores. Portanto, quando for o jogo com o Benfica, já será um Schalke diferente», avisa o médio português.

Sérgio Pinto fala de uma mistura entre experiência e juventudes: «O Schalke tem bons jogadores, como o Raul, claro. Tem também o Rakitic, que agora está a jogar como médio defensivo, e o Jermaine Jones, muito bom jogador. Lá atrás, está também o Metzelder. Esses são os mais experientes. O resto são jovens, que se fartam de correr durante os noventa minutos.»

«O Schalke ainda não tem um estilo de jogo muito definido, é mais força do que táctica. Os adeptos são fervorosos e criam um grande ambiente. Isso o Benfica pode esperar. Mas penso que o Benfica tem condições para garantir bons resultados contra eles», rematou o médio português.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Da Islândia para o Mundo: conheça os reis dos festejos

Esta é a história de um fenómeno que surgiu na Islândia e está a conquistar adeptos por todo o Mundo. A beleza do futebol expressa na celebração efusiva e original de cada golo. Os jogadores do Stjarnan levam um sorriso ao rosto de cada adepto que anseia por novo balançar das redes adversárias.

O Maisfutebol tornou-se fã desta lufada de ar fresco proveniente da gélida Islândia. Tanto que decidiu investigar as origens do fenómeno e apresentá-lo convenientemente ao público português. Se gostou do Rambo do pescador ou da bicicleta, aqui fica a boa notícia: eles aceitam sugestões.

Aliás, o festejo da bicicleta partiu de sugestão brasileira. Do outro lado do Atlântico, os adeptos canarinhos do Stjarnan enviaram um vídeo para o defesa Johann Laxdal, com a coreografia da banda funk Muleks Piranhas. O jogador sorriu e prometeu apresentar a ideia à equipa. Dito e feito.

«É verdade, o movimento da bicicleta veio de um vídeo que pessoas do Brasil me enviaram, através do Facebook. Achei piada e mostrei aos outros jogadores. Acabámos por fazer mesmo isso no jogo seguinte», explica Johann Laxdal, ao nosso jornal.

Surpreendido pela popularidade, radiante por dar uma entrevista para Portugal, o defesa deixa a promessa: «Se os portugueses quiserem, façam o mesmo. Adicionem-me no Facebook e mandem sugestões. Queremos sempre boas ideias e não vamos parar».

Estrela ao domingo, jardineiro à semana

Nem tudo é radiante na história deste Stjarnan, o 6º classificado do campeonato da Islândia. Johann Laxdal, o número 4 que já foi pescado e simulou uma roda de bicicleta, é um dos jogadores semi-profissionais da equipa. Estrela ao domingo, jardineiro municipal durante a semana.

«Aqui, apenas os estrangeiros conseguem ser profissionais, vêm para cá ganhar mais dinheiro. Eu sou jogador do clube, formado lá, sou internacional nas selecções jovens mas não chega. Portanto, durante a semana, ando a tratar os jardins da cidade, a embelezar a cidade», explica, humildemente, o defesa.

Os adversários não acham piada

Neste domingo, o Stjarnan venceu o Selfoss por 3-2. Os adeptos, em número crescente perante o fenómeno, receberam mais duas prendas originais. «Penso que as imagens estarão em breve no Youtube. Num dos golos, o marcador festejou mas depois ficou parado, como se tivesse ficado sem bateria. Teve de ir lá um colega recarregá-lo. No outro, o marcador meteu a bola debaixo da camisola e simulámos um parto. Eu fui o médico», conta Johann Laxdal.

«O nosso treinador está a gostar muito e não deixamos de treinar por isso. Para fazer a bicicleta, bastaram dois ensaios. Os adversários é que não acham piada, mas tentamos explicar que não é nenhuma ofensa a eles, apenas a nossa festa. Sinceramente, não estávamos à espera que isto chegasse a todo o Mundo, mas agora não vamos parar. Veremos o que o futuro reserva», remata o jogador do Stjarnan, em entrevista ao Maisfutebol.

sábado, 7 de agosto de 2010

Yago na Suécia: gigante luso entre altos, loiros e nada toscos

No Inverno o Natal é baril, no Inverno ando engripado e febril, no Inverno é Verão no Brasil, e na Suécia suicidam-se aos mil.

A contabilidade dos Fúria de Açucar, na música «Eu gosto é do Verão», está desactualizada. Na Suécia, a taxa de suicídios não bate recordes mundiais. Nem tem lugar na conversa com Yago Fernández, jovem internacional luso que abre novos horizontes com a camisola do Malmo.

Yago Fernández Prieto, 22 anos, tem uma embalagem invejável. Cresceu entre o Sporting, o Benfica, o Real Madrid, o Valência e o Espanhol de Barcelona. Nasceu em Lisboa, com ascendência espanhola. Passou largos anos no país vizinho, sem ceder à tentação de cantar outro hino.

«Jogarei sempre pela selecção de Portugal, nunca por Espanha. Sou português, adoro o meu país e não vou mudar nunca», garantiu ao Maisfutebol, em 2007. Estava no Valência e convivia com o namoro de Liverpool e Arsenal. Como acontece com inúmeros jovens, sentiu a passagem para o escalão principal.

No início de 2010, rumou ao Gil Vicente para redescobrir o futebol português. Não foi feliz. Ficou amargurado com a experiência, sentindo que o seu país continua a apostar demasiado em valores de outras latitudes. Teve de emigrar.

«Estou há três semanas no Malmo, assinei contrato até Novembro mas o objectivo passa por continuar. Estou a gostar bastante da experiência, é um clube com excelentes condições e estamos a lutar pelo título da Suécia», explica, ao nosso jornal.

O Malmo de Yago foi ao reduto do Orebro para garantir um triunfo convicente (0-3) e encurtar a distância para o líder Helsingborg: «Os adeptos aqui adoram futebol e são muito fiéis à sua equipa. Hoje, jogámos a 600 quilómetros da nossa cidade mas vieram muitos adeptos apoiar-nos. Fomos de avião para evitar o desgaste e agora estamos a regressar de autocarro.»

Yago Fernández está habituado a olhar de cima para baixo. Com 192 centímetros, é uma torre pouco habitual no tabuleiro lusitano. Porém, na terra dos altos, loiros e outrora toscos, o português encontrou concorrentes à altura. Literalmente.

«Sim, é mesmo verdade. Aqui há uns quantos mais altos que eu. Mas continua a ser um dos maiores», garante o internacional luso, entre gargalhadas, ao Maisfutebol.

Yago reencontrou Anderson: «Fui apanha-bolas dele no Benfica»

Yago Fernández adapta-se à Suécia. Chegou há três semanas e está a adorar a experiência. O defesa-central não encontrou nenhum português pelo caminho, mas teve a oportunidade de matar saudades de uma cara conhecida: Anders Anderson.

O jovem internacional luso estava nas camadas jovens do Benfica quando Anderson vestia de encarnado. O médio sueco nunca foi indiscutível e acabou por sair. Dez anos mais tarde, reencontro inesperado no Malmo.

«Tenho falado com o Anderson, ele ainda fala português e até lhe disse uma coisa engraçada. Eu fui apanha-bolas dele no Benfica. Tinha 12 anos e, nos jogos grandes, o clube metia os miúdos dos iniciados a fazer de apanha-bolas», recorda Yago, em conversa com o Maisfutebol.

Sem querer extremar posições, Yago Fernández não esconde alguma amargura pela aposta falhada no Gil Vicente. O defesa estava no Espanhol de Barcelona e foi emprestado ao emblema de Barcelona. Regressava a Portugal para crescer na Liga de Honra. Contudo, ficou desiludido com a realidade nacional. Pelo menos, com a passagem por Barcelos.

«Foram opções do treinador, é passado e prefiro olhar em frente. Não foi uma experiência do meu agrado, esperava outra coisa. Mas agora estou aqui no Malmo e, se tiver de ficar aqui toda a minha vida, fico radiante. Só digo que os clubes portugueses deviam apostar mais nos seus valores. Aqui no Malmo, há dez jogadores suecos entre os 18 e os 22 anos, por exemplo», desabafa.

Yago está encantado com Malmo, como clube e cidade. Atravessa uma ponte e está em Copenhaga, na capital da Dinamarca. Tranquilidade na Suécia, comércio e festa a dois passos. «O clube tem excelentes condições, o estádio é novo e foi inaugurado no ano passado. Quanto à cidade, é pacata e tranquila. Já fui a Copenhaga, mas lá é muita gente, muita confusão. E é uma cidade bem mais rara», remata o defesa.

Figura do Genk revela: «Helton foi o meu primeiro guarda-redes»

Stéphane Demol, antigo dragão, destaca João Carlos como uma das figuras do Genk, adversário do F.C. Porto no «play-off» da Liga Europa. O central brasileiro acrescenta um ponto na teoria de aldeia global. Helton tem quota de responsabilidade na carreira do defesa de 28 anos.

João Carlos e Helton cresceram lado a lado, no Vasco da Gama. Mais velho, o guarda-redes portista ocupava a baliza quando o central chegou à equipa principal, em 2001. «É meu grande amigo. Já não o vejo desde essa altura, mas falámos no ano passado. Posso dizer que o Helton tem a sua parte na minha formação como jogador. Foi o meu primeiro guarda-redes», começa por dizer, ao Maisfutebol.

«Eu era novo e fizemos ano e meio seguidos na equipa. Ele dizia: João, não é assim, João, faz assim, João, vai para ali. Gritava muito mas sem faltar ao respeito, claro. Deu-me muito na cabeça, mas sempre a pensar no meu melhor e no melhor para a equipa. É grande guarda-redes, grande pessoa e merece tudo de bom. Já nessa altura, andava sempre com o violão atrás», brinca o defesa-central.

«O Hulk é um jogador potente»

João Carlos nunca esteve no Porto. Porém, conhece de cor o adversário do Genk. «O F.C. Porto já venceu tudo o que é troféu, é uma equipa que tem muitas armas, mais que nós. Tem o Helton, mas também o Hulk, que é um jogador potente, que já chegou à selecção. Depois há o Falcao, que chegou no ano passado e também é perigoso. E o Souza, que veio agora do Vasco, onde eu joguei», enumera o brasileiro.

A equipa belga respeita o F.C. Porto, sem prestar vassalagem. João Carlos é central com fama de goleador, uma referência no jogo aéreo: «Se der para marcar o meu golo, não vou dizer que não. É uma satisfação poder jogar no Dragão, com toda a gente a ver, é daqueles momentos em que todos os jogadores se querem mostrar. Dos adversários possíveis, este era o mais complicado para o Genk»

«Mas não vamos entregar o jogo. Também temos as nossas armas. O Kevin De Bruyne, por exemplo, chegou agora à selecção principal da Bélgica. É um jovem extremo com muito talento e ainda pode evoluir muito mais», avisa João Carlos.

O defesa tem 28 anos e está na Bélgica há quatro. Recebeu o passaporte belga e chegou a ser equacionado para a selecção. Para já, o futuro passa pelo Genk. «Houve contactos para sair, mas nada de concreto. Até para Portugal chegou a falar-se, no passado cheguei a estar em Lisboa, porque o meu empresário era português. Mas nada se concretizou. Quanto à selecção belga, houve agora mudança de seleccionador e temos de esperar. De resto, tenho mais dois anos de contrato com o Genk e a minha família é feliz aqui», concluiu.

Demol: «João Carlos e De Bruyne são os melhores do Genk»

Stéphane Demol tem competência para falar sobre o confronto entre F.C. Porto e Racing Genk. O antigo defesa dos dragões abraçou a carreira de treinador e defrontou o adversário portista na época passada, quando orientava o Charleroi.

A partir da Grécia, onde treina o PAS Giannina, Demol fala com o Maisfutebol em bom português. Não esquece a sua passagem pelo nosso país, primeiro no F.C. Porto e depois no Sp. Braga. Tem saudades de Portugal e promete voltar a médio prazo. Para já, aborda o duelo agendado para o «play-off» da Liga Europa.

«O F.C. Porto é um grande favorito neste duelo. O Genk vem de um ano difícil, em que até teve de mudar de treinador. Entrou o Frank Vercauteren, antigo capitão do Anderlecht, que jogou comigo na selecção da Bélgica. Ele conseguiu recuperar a equipa e garantir a Europa no último jogo, num play-off frente ao Westerloo», começa por dizer.

O Genk, catalogado por Demol como a quarta força no futebol da Bélgica, está em mutação: «Eles fizeram grandes épocas, mas o ano passado correu mal. Mudou o treinador, mudou também o presidente e mesmo o director-desportivo. Querem fazer uma época bem melhor este ano.»

«Têm o João Carlos, que para mim é o melhor central a jogar na Bélgica. Depois, têm o Kevin De Bruyne, o melhor talento jovem do país. Para mim, João Carlos e De Bruyne são os melhores do Genk. O De Bruyne é um extremo, pode jogar nos dois flancos, muito técnico e rápido. Tem potencial para a selecção. O Elyaniv Barda, de Israel, teve um ano difícil mas é o goleador», explica o antigo internacional belga.

João Carlos tem 28 anos, nasceu no Brasil e foi formado no Vasco da Gama. Está na Bélgica desde 2004 e já tem o passaporte nacional, entrando nos planos da selecção. É um central goleador. Kevin De Bruyne tem 18 anos mas já realizou 35 jogos na equipa principal do Genk, marcando 5 golos. Nos sub-19 da Bélgica, apontou 16 golos em 14 internacionalizações.

Stéphane Demol deseja boa sorte ao F.C. Porto e promete acompanhar o duplo embate, por via televisiva, desde a Grécia. «Estou aqui agora a treinar, no Pas Iannina, mas gostava de um dia treinar em Portugal. Vou tentar ver os dois jogos. Vai ser interessante», remata o velho conhecido dos dragões.

Villas-Boas: da praia das Ilhas Virgens ao banco do F.C. Porto

André Villas Boas vai disputar o primeiro troféu como treinador principal. Aos 32 anos, é o mais jovem técnico na história do F.C. Porto. Na véspera da estreia oficial, o Maisfutebol recua uma década para perceber como um jovem português foi parar à selecção das Ilhas Virgens Britânicas!

O destino peculiar motivou a curiosidade, saciada pelo contacto do homem que recebeu André Villas-Boas num território britânico perdido no mar das Caraíbas. Na quinta-feira, dois meses após a primeira abordagem, Kenrick Grant respondeu ao desafio e recuperou a história de 2000.

«Eu era presidente da Associação de Futebol das Ilhas Virgens Britânicas, nessa altura, e estava à procura de um treinador jovem, com qualificação. O André enviou-nos o seu currículo, vinha de um grande clube como o F.C. Porto e era amigo de Bobby Robson. Ficámos convencidos», conta.

Villas-Boas queimou várias etapas na sua formação como treinador. Tinha apenas 17 anos quando tirou o curso no Reino Unido, por intermédio de Sir Robson, e voltou a Portugal para colaborar com as camadas jovens do F.C. Porto.

«Ao início, estava sempre na praia»

André queria ser treinador antes do prazo, mas era um miúdo. Tanto que, ao chegar às remotas Ilhas Virgens Britânicas, deslumbrou-se. Tinha 22 anos.

«Ao início, estava sempre na praia! Passava por ele e via-o sempre de calções. Tive de falar com ele. Parecia que estava de férias. Mas quando começou a trabalhar, surpreendeu-me logo», admite Kenrick Grant.

Entregaram-lhe a supervisão das camadas jovens. Era pouco para tamanha ambição. «Logo ao início, fez um plano completo para todas as selecções, um manual com planos de jogo e de treino, cheio de informação. Mexia muito bem nos computadores e era soberbo na observação. Vinha para as selecções jovens, mas ele queria trabalhar na principal».

«Passou então a estar nos treinos da selecção principal, a colaborar com o seleccionador. Eu sabia a idade que ele tinha, mas não me arrependi. Deixou trabalho feito, meteu os seniores a treinar os miúdos e muitos desses jovens chegaram depois à selecção principal», congratula-se o antigo responsável pelo futebol nas Ilhas Virgens Britânicas.

«Não tinha paciência para jogadores sem qualidade»

O actual treinador do F.C. Porto acumulava experiência num destino exótico. Tinha 22 anos e estava com pressa. Queria chegar ao topo quanto antes: «Foi o único problema que tive com ele. Percebi que estava aqui pelo currículo, que não iria ficar muito tempo. Queria ser seleccionador principal, mas nessa altura tínhamos um. Então, acabámos por dizer adeus.»

Villas-Boas regressou à Invicta e ao seu clube de sempre, de novo para as camadas jovens. José Mourinho chega mais tarde e reencontra o jovem. André passa a encarregar-se da observação de adversários. Fá-lo com mestria, cresce na sombra, do Porto a Londres, de Londres a Milão.

Dez anos após a primeira aventura, corta de novo a direito. Quer afirmar-se por conta própria e chega à Académica. Convence o F.C. Porto e entra no Dragão pela porta grande. Neste sábado, vai a jogo, a doer.

«Estou ansioso para ver como se safa. Fiquei surpreendido, ele tinha a teoria toda, falta-me perceber se já tem a prática. E outra coisa. Ele não tinha paciência para jogadores sem qualidade, como havia na selecção principal. Por isso é que preferi deixá-lo com os jovens. Talvez tenha mudado entretanto», remata Kenrick Grant, em conversa com o Maisfutebol.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

# N.Y. Cosmos: os galácticos originais estão de volta (vídeo)

Pelé anunciou, neste domingo, o regresso dos New York Cosmos. Os galácticos originais, as super-estrelas do futebol norte-americano, estão de volta após um interregno de um quarto de século. Na década de 70, este sonho americano surpreendeu o Mundo.

A Warner Communications, inesgotável fonte de capital, criou um fenómeno sem paralelo numa sociedade pouco habituada a conviver com o «soccer». Os NY Cosmos popularizaram-se com nomes como Pelé, Carlos Alberto, Beckenbauer, Chinaglia ou Neskeens. O português Seninho estava entre eles.

«É difícil repetir um fenómeno como aquele. Quando cheguei, em 1978, éramos os verdadeiros galácticos. Vi o estádio dos New York Giants, com 76 mil pessoas, várias vezes esgotado. Já havia ecrâns gigantes, cheerleaders, animações antes do jogo e ao intervalo, até estádios com relva artificial. Naquela altura, diziam que os americanos eram malucos por jogar em relva artificial», recorda Seninho, em conversa com o Maisfutebol, ao rebobinar o filme de uma aventura inesquecível.

A máquina impressionava. Os jogadores desdobravam-se entre as competições e os eventos sociais. «Mal cheguei, disseram-me logo que tinha de aprender inglês. Não estava ali só para jogar futebol. Ainda por cima, ali não sabiam quem era o Seninho. A minha sorte foi ter brilhado numa vitória do F.C. Porto frente ao Man. United. Deu na televisão e, na manhã seguinte, estava reunido com os responsáveis da Warner», diz o antigo avançado.

Pelé a chegar aos estádios de helicópetro

Seninho chegou aos Estados Unidos em 1978, ainda na fase dourada dos New York Cosmos. Pelé foi o porta-estandarte da equipa americana. Nessa altura, jogava apenas os particulares. Sempre com estatuto de estrela: «Foi há 32 anos, mas o Pelé já chegava de helicóptero. Íamos de costa a costa, não raras vezes, em avião particular, da empresa. Certa vez, pagaram a viagem a todas as nossas famílias, para estarem connosco oito dias. Pagaram hotel, tudo. Era algo extraordinário, na altura.»

Os NY Cosmos venciam quase sempre. Arrastavam multidões para os estádios e convenciam milhões de jovens a descobrir o «soccer». Multiplicaram-se os títulos, entre a década de 70 e o início de 80. Porém, com o tempo, surgiram os incontornáveis problemas.

«A dada altura, a Liga chegou a acordo com o Cosmos para distribuir jogadores por outros clubes. O Cruijff foi para Washington, o Cubillas e o Gerd Muller foram para Fort Lauderdale, por exemplo», enumera Seninho, actualmente com 61 anos. Eusébio também participou no desfile de estrelas na América do Norte.

O fim das estrelas para o início da formação

Os adeptos apaixonavam-se pelo fenómeno, as equipas apostavam em estrelas de renome internacional. Contudo, a «galáxia» dos New York Cosmos desapareceu em 1984. Aos poucos, os jogadores norte-americanos foram reclamando o seu espaço e alteraram a lógica vigente.

«Nesse tempo, eles não tinham tanta qualidade como hoje. Quando cheguei, eram nove estrangeiros e dois americanos por equipa. Depois quiseram reduzir, primeiro oito estrangeiros depois sete. Em 1984, jogavam apenas seis. Com isso, o público afastou-se e o encanto perdeu-se. Os NY Cosmos desapareceram nesse ano», lembra o antigo avançado.

26 anos depois, os Cosmos estão de volta. Pelé anunciou o regresso, no lançamento de um projecto assente na formação. «Once in a Lifetime», «Uma vez na vida». Eis o nome do documentário que relata a história daquele fenómeno. Irrepetível, concorda Seninho.

sábado, 31 de julho de 2010

Bigorna, o original: «Walter vai marcar ao Benfica como eu»

Walter chegou a Portugal com a alcunha de Bigorna. O reforço do F.C. Porto surgiu no Internacional de Porto Alegre e foi rapidamente comparado a Claudiomiro, o homem que marcou o primeiro golo no Estádio Beira-Rio. Ao Benfica de Eusébio, em 1969.

Claudiomiro é o Bigorna original. Baixo e largo, como Walter (176 centímetros e 86 quilos). Representou a selecção do Brasil em cinco ocasiões, no início da década de 70. Nessa altura, acumulava títulos pelo Internacional. Mas já tinha deixado a sua marca. Aquele golo ao Benfica, na inauguração do estádio em Porto Alegre, a 6 de Abril de 1969, imortalizou o Bigorna.

«Walter remata forte com os dois pés»

«O Walter foi apelidado de Claudiomiro II, mas eu era mais rápido que ele. Temos algumas parecenças, porque ele é baixinho e gordinho. Eu era mais de partir para cima, jogava no centro, o Walter cai mais nas alas e remata de longe, forte, com os dois pés», explica Claudiomiro, no início da conversa com o Maisfutebol.

O F.C. Porto contratou um craque, garante o antigo avançado, rebobinando o filme para explicar como entrou na história do Internacional de Porto Alegre. «Convidámos o Benfica para a inauguração do Beira-Rio porque jogava de vermelho, como nós. Era uma equipa fabulosa. A base da selecção de 66. Tive a felicidade de marcar o primeiro golo desse estádio, mas a minha carreira foi mais que isso», lembra.

«Vencemos por 2-1, nesse dia. Eu marquei o primeiro, lembro-me que foi um cruzamento do Valdomiro, eu estava entre os centrais, um deles era o Humberto, e marquei», recorda o Bigorna original, desejando igual sorte para o seu sucessor: «Sei que o Benfica é rival aí do Porto. Acredito que o Walter vai marcar ao Benfica como eu, tem qualidade para isso e para muito mais!»

«Tem tendência natural para engordar»

Claudiomiro terminou, aos 29 anos, uma carreira atormentada por problemas físicos e descontrolo no peso. Mais um ponto, aliás, em comum com Walter. Antes, os elogios. «O Walter sabe usar o físico, usa bem o corpo e remata com muita força. Tem muito potencial para dar certo no F.C. Porto e depois sair para Espanha, Itália ou Inglaterra. Só precisa de ter a cabeça no sítio», considera o Bigorna.

«Ele tem de saber bem o que diz. Lembro-me que chegou aqui uma vez a dizer que nunca mais jogava no Internacional. Voltou e forçou a barra de novo. Nunca pode sair de um clube como este sem deixar a porta aberta. Tentei dar-lhe conselhos, nas viagens que fazíamos juntos, espero que ele melhore», desabafa o brasileiro, que trabalha agora no Departamento de Comunicação do Internacional.

No final da conversa, entre inúmeros elogios a um potencial imenso, mais um conselho para o reforço azul e branco. «Ele tem tendência natural para engordar, como eu tinha, mas no meu tempo não havia nutricionista. Vai ter de fazer um regime para ficar em condições. Lembro-me que, quando voltou de lesão, até veio com peso a menos, portou-se muito bem. Portanto é só uma questão de manter essa situação sob controlo», remata Claudiomiro, em entrevista ao Maisfutebol.

sábado, 5 de junho de 2010

10 anos de Maisfutebol: momentos que preferia não ter vivido

Luís Mateus devolveu-me a emoção, sentimento repudiado no exercício do jornalismo. Em dia de aniversário, podemos ser protagonistas. Dar opinião, assumir a nossa identidade, desabafar, comemorar a edificação de um projecto sem paralelo no panorama nacional.

Os elogios ao Maisfutebol, a minha casa desde 2005, esperam. Antes, os momentos que preferia não ter vivido. Aqueles raros instantes em que repudiei a escolha de vida, a curiosidade e isenção exigidas ao jornalista.

Ainda ao serviço do extinto Comércio do Porto, estive no trágico V. Guimarães-Benfica de 2004. Na bancada de imprensa, enquanto Fehér caía do outro lado do relvado, anunciavam-se as primeiras lágrimas.

Segui para o hospital, contrariado, sem qualquer interesse em dar a notícia que nos esperava. Encostei-me a um canto, à porta das Urgências, procurando fugir ao anúncio indesejado.

Naquele momento, queria mentir, escrever que não, Fehér resistira. Chorei apenas ao chegar a casa, jornal fechado, dever cumprido.

A morte voltou a atormentar-me em 2009. Desta vez, sem aviso. A 10 de Novembro, o assessor de Hugo Almeida alerta-me para o falecimento de um guarda-redes alemão. A notícia era recente, cinco minutos apenas.

Carreguei no link enviado, rezando para não encontrar a foto do homem que entrevistara no ano anterior. Era mesmo ele: Robert Enke. O mesmo que sorrira, dialogara em português e falara sobre as saudades do Benfica, durante o Europeu de 2008.

Recuando no tempo, todas as imagens positivas da cobertura do Euro2008, a minha primeira experiência do género, os golos de Portugal, as paisagens inesquecíveis de Suíça e Áustria, os adeptos, tudo se desvanece quando recordo aquele curto diálogo com Enke.

«Robert Enke ist tot». Manchete do Bild, com fundo negro. Não queria acreditar. Durante um, dois minutos, guardei silêncio. Depois, dei mais uma notícia indesejada, evitando os contornos anunciados posteriormente. Recordei apenas aquele sorriso, um ano antes, já escondendo a agonia interior.

As notícias sem papel

As despedidas precoces de Féher e Enke marcam o meu percurso jornalístico. Muito mais que as agressões cobardes, em 2006, quando adeptos acreditaram que a ida de Jesualdo Ferreira para o F.C. Porto era pura invenção jornalística.

Tudo o mais é glorioso. Acompanhando o Maisfutebol por fora, imaginei uma equipa de meia centena de almas, inúmeros recursos para trilhar um caminho desconhecido na rede. Para mim, jornal era papel.

Agora, cinco anos após a entrada no projecto, agradeço a falta de amarras. Nesta casa, sustentada por dezena e meia de irrequietos criativos, não há espaços para preencher, recados de dirigentes em forma de notícia, projectos de transferências transformados em apresentações precoces.

Com o afastamento deliberado de clubes e dirigentes, perdem-se algumas notícias. Tudo bem. Descobrem-se histórias interessantes, vídeos de bradar aos céus, relatos incríveis de um futebol que não pára de nos surpreender.

Não foi fácil. O caminho foi longo, sinuoso, sempre no limite do risco. O Maisfutebol completa dez anos, apanhei este comboio há cinco. Quem iniciou a marcha, deve encher-se de orgulho por ter criado uma marca, um estilo, uma forma alegre de olhar para o desporto.

Eu aprendi a fazer o mesmo, a procurar a cor entre o cinzentismo, a criar em vez de copiar, a acreditar na beleza do futebol que teima em ser negligenciada.

No fundo, a acreditar em si, leitor, na sua capacidade para dizer BASTA às politiquices e devolver o jogo aos seus verdadeiros donos: os jogadores.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

10 anos, 1 golo: avançado-cabeleireiro torce pelo Shampoozinho

O Íbis Sport Club apresenta-se como o pior clube do Mundo. E Mauro Shampoo, cabeleireiro e avançado, foi o pior jogador do Íbis: 10 anos, 1 golo marcado. O filho, Shampoozinho pois então, quer apagar essa página negra da história. «Que marque golos por ele e pelo pai», pedem os adeptos.

«Olha, eu joguei dez anos no Íbis e fiz um golo. O meu filho vai fazer mil. Tem mais qualidade que eu, mesmo que o time seja ruim. Começou hoje no Íbis, vai ouvir falar muito do Shampoozinho», promete Mauro, uma celebridade do Recife, em conversa com o Maisfutebol.

Mauro Shampoo virou fenómeno. A imprensa canarinha conheceu o pior avançado do Mundo, gostou da personagem e deu-lhe visibilidade. Seguiram-se filmes, anúncios e até músicas em sua honra. «Sou cabeleireiro, jogador de futebol e homem». O cartão de visita afasta quaisquer suspeitas. «Eu cresci na favela e, quando disse que ia ser cabeleireiro, duvidaram logo de mim. Nada disso. Sou casado e com filhos», avisa.

«Sempre tive o sonho de jogar num clube grande. Mas fiquei pelo Íbis mesmo. Só marquei um golo. Foi no Arruda, o guarda-redes sacudiu para a frente e eu marquei. Não tinha ninguém no estádio, mas fiz a festa toda. Os amigos brincam, dizem que foi na própria baliza, eu garanto que não. Em dez anos, foi o meu único golo», garante.

Mauro é feliz. Joga nos veteranos do Íbis, tem o seu cabeleireiro e continua a gozar a fama de pior avançado do Mundo. O filho, carregando a cruz como Shampoozinho, espera melhorar a imagem do progenitor: «Olha, eu perdi, perdi, e perdi de novo. O único título que tenho é o título de eleitor. É uma vergonha de carreira. Mas sou feliz. Jogo no Masters do Íbis, mas continuo sem marcar golos. É muito díficil.»

«Eu vesti o 10, era a estrela do Íbis. Tem Pelé, Maradona, Cristiano Ronaldo, Messi, todos camisola 10 como eu. Fico feliz com isso. Passei dificuldade, dormi na rua e só queria jogar futebol. Fui parar ao Íbis, time ruim. Fiquei por aí. Agora vem aí o Shampoozinho, vai ver que ele terá mais sucesso», repete, em diálogo com o Maisfutebol. Esperemos para ver.



Jornalismo pelas ruas da amargura

Primeiro, foi um adepto intitulado xeio_de_sono a garantir que os Super Dragões tinham comprado 3.500 bolas de golfe. Uma fonte de grande confiança, claro está, a valer primeira página em jornal de referência e natural histeria dos demais.

Depois, o morto que afinal não morreu. A Benfica TV, um meio não jornalístico, lembrou-se de lançar para o ar uma lamentável morte, consequência dos confrontos em Braga após a conquista do título. E o que fazem os jornais? Manchetes instantâneas, sem pegar num telefone. Afinal, a PSP diz que não morreu ninguém. E agora?

Não critico a Benfica TV. São amadores a fazer uma espécie de canal. Critico é quem vai atrás sem pensar, responsável por possíveis consequências graves. Pensem, porra!

Danilo revê o menino Hulk: «Vou mandá-lo para o outro lado»

O F.C. Porto descobriu Hulk. O Vilanovense, anos antes, descobrira Pará. É por essa alcunha que Danilo recorda o compatriota que vai reencontrar no Jamor, agora com barba rija e autoridade para impor lei.

«Na altura, era um menino mas já vinha para cima de mim». E vai de novo. O lateral direito do D. Chaves acolheu o extremo do F.C. Porto em 2002. Em Vila Nova de Gaia, era juvenil contra sénior, duelo sem respeito nos treinos da equipa principal.

Agora, vale um troféu. Danilo nunca temeu tanto um duelo com Givanildo,igual a Pará, igual a Hulk. «Chamávamos-lhe Paraíba, ou Pará, quando ele apareceu no Vilanovense, porque era a região dele. Agora é Hulk, mas já então era grande. Vinha de família pobre e tentávamos ajudar. Não dava era para lhe emprestar as minhas chuteiras, ele tinha 15 anos mas o pé dele já era maior que o meu.»

Hulk, gozado aos 15 anos por dizer: «Um dia, vou jogar no F.C. Porto»

Danilo é trintão. Hulk vai nos 23. Em 2002, Danilo estava por cima. E no domingo? «Se ele me cair em cima, vou mandá-lo para o outro lado. Nos treinos, apanhava com ele, que jogava na esquerda, encarava e queria fintar todos, mesmo sendo menino. Se ficar no meu lado, vou tentar travar, e tem de vir mais um ou dois para ajudar. Já naquela época tinha qualidade, mas teve de voltar para o Brasil, não sei porquê», recorda o defesa da formação flaviense, ao Maisfutebol.

«Fico feliz por vê-lo bem. É um grande jogador, com qualidade para chegar à selecção brasileira. Só estive uma vez com ele, desde que voltou. Cruzámo-nos na Madeira, Porto e Chaves jogavam lá. Vimo-nos no aeroporto, abraçámo-nos, recordámos as histórias do Vilanovense. As voltas que o Mundo dá», desabafa, entre sorrisos.

Taça para reconquistar Chaves

Chaves está em choque. O Desportivo, orgulho flaviense, caiu de divisão. Nas ruas, protestos. Na alma, dor imensa. «Se pudéssemos, trocávamos a Taça por ficar na II Liga. Ando pela rua e as pessoas vêm ter comigo, tristes pela descida. Muitos já nem vão ao Jamor por isso. Queremos provar que não estamos aqui só pelo dinheiro.»

Danilo é brasileiro mas fala como flaviense. Foi a quinta época no clube, a décima em Portugal. Chega ao ponto mais alto sem disfarçar o embaraço. «Chegámos à final da Taça e pensámos que isso ia aliviar os problemas financeiros. Mas mesmo assim foi difícil arranjar patrocínios para ir à final. A despesa é grande.»

Chaves paga o preço da interioridade. O corpo ressente-se. «Vamos de autocarro, seis horas de viagem, na véspera do jogo. Ao menos isso, vamos um dia antes, dá para recuperar. Agora imagine as viagens para o Algarve, nove horas. Isso sim, é duro»

«Esta semana, jogadores e treinadores reuniram-se para falar da descida e da Taça. É a nossa oportunidade para provar que temos valor. Chegámos à final! É David contra Golias, espero que dê David. Vamos para ganhar, mas se perdemos, jogando bem de igual para igual, já deixaremos uma boa imagem», finaliza Danilo, com dose moderada de esperança.

Jesualdo e Pavão: Chaves de partida, com Porto de chegada

Jesualdo Ferreira e Pavão são dois daqueles homens que têm reservada uma página em nome próprio na história do F.C. Porto. Jesualdo foi o primeiro treinador português três vezes campeão no clube, Pavão foi um dos mais brilhantes jogadores que vestiu a camisola azul e branca. Curiosidade: conheceram-se em Chaves.

Veja as fotos da época

Conheceram-se e evoluíram para uma grande amizade. Chegaram a partilhar um ano nos juniores do D. Chaves, imediatamente antes de Pavão se mudar para o F.C. Porto. «O Jesualdo falava-me tanto do Pavão que ainda me lembro do nome dele. Fernando Pascoal das Neves. É ou não é?», interroga a prima Marília Pires.

É, sim senhor. Jesualdo é um ano mais velho, mas calhou partilharem a cidade e um prazer inesgotável no desporto. Ora numa altura em que o F.C. Porto vai encontrar o Chaves no Jamor, o Maisfutebol recupera a história de uma amizade fora de campo - com rivalidade dentro dele -, que vai de um clube ao outro.

Os jogos a dinheiro na rua

Jesualdo estudava no Liceu, Pavão andava na Escola Industrial. Na década de 50, num Portugal cinzento, os jogos entre as duas escolas davam que falar. «Eram grandes duelos, com muita gente a ver», diz Silvano Roque, antigo colega de Jesualdo. «Eram jogos equilibrados e não perdíamos só por causa do Pavão».

Jesualdo e Chaves, uma história de amor

E Jesualdo, pergunta-se? «Tinha habilidade, mas não era dado ao contacto físico.» Ora um pouco como Pavão, aliás. «Ele era pequenino, mas muito tecnicista. Nessa altura até foi fazer um teste ao Benfica, mas disseram-lhe que precisava de comer sopa. Foi para o Porto, deram-lhe tripas e ele cresceu», conta João Neves.

João Neves era irmão de Pavão e lembra-se que a amizade deles cresceu nesses duelos. «Andavam sempre a jogar à bola. Iam para o descampado entre a Escola e o Liceu e jogavam a dinheiro. Faziam duas equipas, cada jogador entrava com 10 tostões e quem ganhasse ficava com o dinheiro. Para aí 10 escudos.»

Dois rapazes «engatatões»

A rivalidade não era só no futebol, de resto. Os dois partilhavam também a fama de... marialvas. «Aqueles jogos eram muito concorridos, juntavam-se as meninas todas para ver e o Jesualdo ficava todo vaidoso. Tinha a mania que era muito engatatão. Ainda por cima tinha vindo de África e era moreno», sorri Silvano Roque.

Um pouco como Pavão, aliás: a alcunha de Pavão veio de algum lado. «Um dia perguntei ao Jesualdo por que lhe chamavam Pavão, se o nome dele era Fernando das Neves. Ele disse que ele tinha um andar muito emproado, todo elegante e charmoso para cima das meninas. Parecia um pavão», conta Marília Pires.

E o futebol para sempre na vida deles

Ora a vida acabou por afastá-los. Pavão foi para o Porto, onde fez carreira nas Antas até uma morte trágica em pleno relvado. Jesualdo seguiu para Lisboa, onde cursou Educação Física e se fez treinador de futebol. Continuaram amigos, com regresso frequente a Chaves. E mantiveram o futebol na vida deles.

«O Pavão era doente por futebol. Por futebol, voleibol, andebol... Seguiu futebol porque naquela altura já permitia fazer vida», conta João Neves. «Os meus tios ficaram chateados por ele cursar Educação Física. Queriam que fosse médico ou advogado», diz Marília Pires. «.Mas ele não torceu. Era um vício.»

Um vício que veio da mãe. «Adorava futebol. Faleceu com cancro, na fase terminal ia a Lisboa fazer tratamentos e só se distraía com bola. O meu primo levava-a aos treinos ou aos jogos porque ela adorava aquilo. Quando era mais nova, levou o Jesualdo a ver um jogo do Eusébio. Foi aí que ele se apaixonou pelo futebol.»