segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Coreia do Norte: «Um pesadelo bem pior que a União Soviética»

Leonid Petrov é a maior referência académica nos estudos sobre a Coreia do Norte. Vários parceiros referem o seu nome quando alguém solicita uma visão mais profunda sobre o regime de Pyongyang.

Em entrevista ao Maisfutebol, o professor de Estudos Coreanos da Universidade de Sidney (Austrália) relata várias visitas à Coreia de Norte, reconhece as fortes restrições de movimentos impostas aos turistas e chega a comparar esta realidade com outra bem popular: «A Coreia do Norte parece-me um pesadelo bem pior que a União Soviética».

Formado em História e Língua da Coreia, pela Universidade Estatal de S. Petersburg (1994), o Dr. Leonid Petrov obteve uma pós-graduação em História, com estudos especializados sobre a Coreia do Norte. Deu aulas na Coreia do Sul, nos Estados Unidos da América e em Paris, alimentando um blog sobre a realidade que cativou a sua atenção (www.korea-vision.com).

Como desenvolveu o seu interesse pela Coreia do Norte?
«Eu nasci na União Soviética, antes da Perestroika, quando a Economia mal funcionava e a liberdade política era uma mera utopia. Cresci a acreditar que todos os outros viveriam melhor que nós. Contudo, quando comecei a ouvir as histórias sobre a Coreia do Norte, pareceu-me um pesadelo bem pior que a União Soviética. Fiquei curioso e tentei aprender o máximo sobre esse país eremita. Acabei por entrar para o Departamento de Estudos Coreanos da Universidade Estatal de S. Petersburgo.»

Quantas vezes visitou a Coreia do Norte?
«Visitei a Coreia do Norte em 1999, 2004, 2005, 2007 e já este ano, em 2009»

Nessas viagens, sentiu várias limitações, como ter de deixar o seu telemóvel na fronteira?
«Sim, todos os visitantes estrangeiros têm de deixar o seu telemóvel na fronteira. O telemóvel, o GPS e qualquer outro tipo de aparelho com comunicação por satélite. Se as autoridades assim o exigirem, também temos de deixar todo o material impresso, como jornais, revistas ou livros. Depois, ao deixar o país, o material é devolvido.»

Que retrato pinta sobre a Coreia do Norte, após essas visitas?
«A Coreia do Norte está numa situação semelhante à da União Soviética sob o comando de Estaline, entre 1930 e 1950. O estado distribui alimentos e outros géneros pela população, entregando mais a alguns grupos que demonstrem mais lealdade pelo regime. As liberdades pessoais e políticas são severamente truncadas, transformando todo o país num reino semi-feudal em que tudo e todos pertencem a apenas uma pessoa: o Querido Líder»

Pensa que a unificação das duas Coreias é possível?
«Os coreanos do Norte e do Sul sonham com a unificação. Contudo, eles conhecem muito pouco uns sobre os outros e não imaginam quão difícil seria esse processo, após 60 anos de separação completa. Nesta altura, os líderes dos dois país não consideram que a unificação seja uma opção viável. Para a Coreia do Sul, seria demasiado dispendioso. Para a Coreia do Norte, seria demasiado humilhante.»

A situação nuclear na Coreia do Norte é uma grande preocupação Mundial. Pelo que estudou e estuda, pensa que a ameaça é real?
«Não. Não acredito que a Coreia do Norte tenha realmente armas nucleares com capacidade para atingir um alvo. Anteriormente, eles fizeram dois testes que falharam ou eram falsos. Os testes de mísseis balísticos também não foram muito bem sucedidos. Por tudo isto, concluo que Pyongyang não tem uma bomba nuclear activa que consiga lançar com algum género de lançador de mísseis. Mas, face a políticas regionais que operam sob a convicção de que a Guerra Coreana de 1950 ainda não acabou, as ambições e garantias da Coreia do Norte em relação à posse de armas nucleares servem como factor de desestabilização. Isto pode originar uma corrida nuclear entre a Coreia do Sul, Japão e Taiwan, agravando as relações entre China, Estados Unidos e Rússia...»

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Clube oferece lugar: você pagava para jogar na Liga Europa?

Se tem entre 18 e 60 anos, 10 mil euros em caixa e vontade de jogar futebol, pode participar na próxima edição da Liga Europa. Basta a vontade, nem é preciso jeito.

O F.C. Olimpia, quarto classificado do campeonato da Moldávia, está a vender um lugar no onze, em leilão. Basta apresentar a melhor proposta e já está: nome na camisola, reportagem na televisão, titularidade garantida!

«Become a football star in a moment». Qualquer coisa como: se pagares, podes ser uma estrela instantânea. A 21 de Dezembro, o Olimpia de Balti lançou o concurso em parceria com o portal televisivo Sports.md.

Até 21 de Março de 2010, todos podem apresentar a sua proposta de adesão. Sem vídeos, sem empresários. Basta ter a idade certa, sem homem e vá lá, não ter problemas de saúde.

O formulário está disponível no site oficial do clube moldavo (http://fcolimpia.md/en/worldstar). Será necessário um registo inicial de 300 euros. Depois, o concorrente avança com a sua proposta. O mínimo são 10 mil euros. Se alguém pagar um milhão de euros, já nem há concurso, teremos vencedor imediato.

A proposta choca, mas importa referir que o salário médio na Moldávia não vai além dos 170 euros, ou seja, nem chegaria para pagar o registo inicial para jogar pelo F.C. Olimpia.

«Depois de assinar contrato com o F.C. Olimpia, essa pessoa será famosa em todo o Mundo. Poderá contar com reportagens nos jornais e televisões. Por momentos, essa pessoa será tão popular como Cristiano Ronaldo, Messi ou Ronaldinho. Ele virá até à Moldavia, para treinar connosco e até poderá jogar no campeonato ou na Taça. Irá trabalhar e depois garantidamente jogar nas competições europeias», explica o vice-presidente Serghei Chiseliov.

Um aviso para os potenciais interessados: o Olimpia está em quarto lugar. Na Taça da Moldávia, a equipa chegou às meias-finais. Ou seja, o F.C. Olimpia oferece um lugar para a disputa da Liga Europa ou mesmo da Liga dos Campeões. Mas ainda não é seguro que chegue até lá.

Entretanto, nesta quarta-feira, o clube deu um passo em frente para promover a sua iniciativa. O F.C. Olimpia contactou Michael Schumacher para oferecer-lhe o lugar. Tem algum talento, fama e o dinheiro necessário. Basta querer.

«Levámos um susto na Moldávia»

A Moldávia em geral, o futebol moldavo em particular, é um enorme ponto de interrogação para os portugueses. Libertada das amarras da União Soviética, a jovem nação espera caminhar para uma subsistência saudável.

Em Julho de 2009, o Paços de Ferreira enfrentou o desconhecido na segunda pré-eliminatória da Liga Europa. A formação lusa viajou até à capital da Moldávia, Chinisau, para defrontar o Zimbru local.

Após um nulo fora de portas, Cristiano garantiu a passagem na segunda mão (1-0).

«Levámos um susto quando chegámos à Moldávia. Não tem nada a ver com o resto da Europa. É um país muito atrasado, com muita pobreza. O aeroporto era pequeno e o nosso avião era o único na pista. Uma cidade pobre, mesmo», recorda o guarda-redes Cássio.

O guardião brasileiro aplaude, por outro lado, a realidade desportiva na Moldávia. «O Zimbru tinha um estádio novo, para mais de 15 mil pessoas, um belo centro de treinos. Foi muito difícil jogar lá. Mas mais difícil foi andar no nosso hotel, no dia do jogo. Acordámos e percebemos que havia uma feira de cosméticos em pleno hotel! Passámos o dia a tentar andar entre duas mil mulheres», recorda Cássio, em conversa com o Maisfutebol.

Vídeo sobre o FC Olimpia:

O ano incrível de Cissokho: «Muito obrigado, Portugal!»

«Muito obrigado, Portugal! Há um ano, estava no Vitória de Setúbal, vinha do Guegnon e podia ter ido jogar para a III Divisão de França. Depois, fui para o F.C. Porto, joguei na Champions, cheguei ao Lyon e à selecção de França. Foi um ano incrível!

Aly Cissokho começa a acreditar: o sonho transformou-se em realidade. No ano passado, comemorava o Natal com alguns sorrisos, face a exibições convincentes com a camisola do Vitória de Setúbal. Chegara do Guegnon, equipa relegada para a III Divisão gaulesa, sem nome ou credenciais. Agora, é titular no Lyon, joga na selecção de França, já brilhou no F.C. Porto e deixou saudades. Um caldeirão de emoções, recuperado em entrevista ao Maisfutebol.

Aly, onde estava há exactamente um ano?
«Há um ano já não estava muito mal. Estava em França, a passar o Natal com a minha família, já com alguma alegria, porque fui feliz no V. Setúbal e tinha sido informado dias antes que ia para o F.C. Porto em Janeiro. Festejei o Natal com a satisfação de ter dado um passo em frente num país novo, com outra cultura. Foi muito difícil. Quando me falaram do Vitória de Setúbal, no Verão, não sabia nada sobre a equipa, nem sequer sabia a cor das camisolas!»

Do Guegnon para Setúbal e depois o Porto. Esperava um salto tão grande?
«Nunca! Estava em fim de contrato com o Guegnon e, se ficasse no clube, ia jogar para a III Divisão de França. Não sei onde estaria agora. Já quando me ligaram do V. Setúbal, fiquei entusiasmado, porque ia para a I Divisão de Portugal. Só pensava em agarrar a oportunidade, melhorar a minha vida. Tudo o resto foi uma surpresa.»

No F.C. Porto, qual foi o seu melhor jogo?
«Penso que dei nas vistas em Old Trafford, no jogo da Liga dos Campeões frente ao Manchester United. Estavam muitos clubes a acompanhar esse jogo, acho que foi a minha melhor exibição com a camisola do F.C. Porto e abriu-me muitas portas. Aliás, nessa altura as pessoas em França começaram logo a falar de mim para a selecção. Logo aí, comecei a pensar ma selecção de França, apesar de ter o convite do Senegal.»


Lateral esquerdo explica falhanço nas negociações com os italianos

Cissokho, o Milan e os dentes: «Tinha demasiados empresários»

Pela primeira vez, Aly Cissokho vai ao fundo da questão e explica o falhanço nas negociações com o AC Milan, em entrevista ao Maisfutebol. O lateral esquerdo acabaria por trocar o F.C. Porto pelo Ol.Lyon, num ano de 2009 verdadeiramente incrível para a sua carreira.

O que se passou afinal com o AC Milan e a questão dos dentes?
«Não tenho nem tive problemas de dentes. Os verdadeiros problemas foram financeiros. Isso foi apenas uma forma de encobrir a história. Naquela altura não quis falar sobre o assunto, mas prometi a mim mesmo que um dia iria contar toda a história.»

Pode contar agora. Foram problemas com empresários?
«Sim, sobretudo isso. Quando eu estava em França, procurando alternativas ao Guegnon, acabei por assinar contratos com demasiados empresários. Alguns contratos eram válidos por dois anos, outros eram para colocação em determinado clube. A verdade é que, quando eu cheguei a Milão, apareceram não sei quantos empresários a pedir dinheiro ao AC Milan, mostrando procurações assinadas por mim.»

Quantos contratos assinados com empresários tinha, nessa altura?
«Bem, só em França, posso dizer que assinei contrato com cinco empresários franceses. É preciso ver que eu era um jovem, sem experiência, e estava com uma situação complicada no Guegnon. Então, um ano depois, eu cheguei a Itália e apareceram todos esses empresários a dizer que tinham direitos sobre a minha transferência!»

Para além do empresário português e o italiano. O Milan desistiu por isso?
«Sim, o presidente do AC Milan, que é uma pessoa muito poderosa em Itália, ficou muito nervoso. Eu tenho culpa nessa parte, de ter assinado contratos com demasiados empresários. Mas também ouve desacordo entre os clubes, depois. E disso não tive culpa nenhuma.»

Quando o negócio abortou, pensou que ficaria mais um ano no Porto?
«Claro, e não me importaria nada com isso! Não indo para o AC Milan, eu queria ficar no F.C. Porto, um clube onde me sentia muito bem. Gostei muito do clube e da cidade. Estava feliz em Portugal. Mas entretanto apareceu o Ol. Lyon, falei com o F.C. Porto e aqui estou.»

Como correm as coisas em França?
«Pessoalmente, correm muito bem. Fiz quase todos os jogos, tenho boas condições para proporcionar também à minha família e já cheguei à selecção de França! Foi lindo treinar ao lado de nomes como Henry, Anelka ou Evra. Nunca vou esquecer essa experiência. Agora quero continuar a trabalhar para tentar ir ao Mundial. É difícil, porque a França tem muitos laterais esquerdos. Mas eu acredito sempre.»


Lateral esquerdo tem acompanhado os dragões e Alvaro Pereira

Cissokho e o F.C. Porto: «Precisa de melhorar na segunda volta»

Aly Cissokho pensa no Olympique de Lyon e na selecção de França. Para trás, em apenas alguns meses, ficaram o modesto Guegnon, o Vitória de Setúbal e o F.C. Porto. Contudo, o jovem lateral esquerdo não esquece Portugal e continua a acompanhar a nossa Liga. Confissões em entrevista ao Maisfutebol:

Tem visto os jogos da Liga portuguesa?
«Claro, tento sempre ver. Vi há dias o clássico, que o F.C. Porto perdeu. Foi pena. Aqui é difícil acompanhar, porque a televisão francesa não transmite os jogos da Liga portuguesa, apenas da Liga dos Campeões. Mas apanho a RTP Internacional e vou acompanhando os jogos, do F.C. Porto e não só. Deixei muitos amigos aí.»

O F.C. Porto parece-lhe mais fraco que no ano passado?
«Sim, não está tão forte, mas também seria difícil esperar mais, porque o F.C. Porto perdeu muitos jogadores. Entraram outros, sobram vários com muita qualidade e um treinador que sabe muito bem o que está a fazer. O F.C. Porto precisa de melhorar na segunda volta e acredito que isso vai acontecer. Que seja campeão e ganhe a Taça de Portugal!»

E o Alvaro Pereira, que ocupou o seu lugar, que lhe parece?
«Ainda estive quase duas semanas com ele no Porto, antes de seguir para o Olympique de Lyon. Tem qualidade, é internacional pelo Uruguai e penso que se vai impor. Não é fácil jogar no F.C. Porto, é preciso manter um nível bem alto, em todos os jogos. Mas penso que ele, tal como o resto da equipa, também irá crescer na segunda metade da época.»

Que lhe apetece dizer, olhando para o último ano?
«Obrigado. Sim, sem dúvida. Muito obrigado, Portugal! Graças a vocês, às oportunidades que tive aí, a minha vida é muito melhor agora. Estive para cair para a III Divisão de França e num ano cheguei à Liga dos Campeões, ao Ol. Lyon e à selecção nacional. Foi um ano incrível!»

José de Morais: português recorda a selecção sem pátria

José de Morais integra o contingente luso de treinadores emigrados. Portugal espalha representantes pelos quatro cantos do Mundo e multiplicam-se as histórias interessantes, os registos inacreditáveis de experiências sem paralelo na nossa realidade. Em conversa com o Maisfutebol, o actual técnico do Espérance de Tunis (Tunísia) recupera o seu diário de viagem.

Aos 43 anos, Morais já treinou em destinos distintos como Portugal, Alemanha, Suécia, Arábia Saudita, Iémen e Tunísia. A bola é sempre redonda, costumam ser onze para cada lado, mas as semelhanças terminam logo aí. Por vezes, encontram-se muito mais que clubes de futebol. A história do Assyriska, por exemplo, merece ser contada.

José de Morais treinara a equipa B do Benfica, alguns emblemas na Alemanha, Estoril, Ac. Viseu e Santa Clara. Em 2005, recebe um convite da Suécia. Iria encontrar os famosos jogadores altos, loiros e relativamente toscos? Longe disso. O Assyriska chegou ao topo do futebol sueco como representante da comunidade assíria radicada no país. Os assírios são um grupo étnico actualmente sem pátria. As suas origens estão dispersas por Iraque, Síria, Turquia ou Irão.

Cinco milhões de adeptos

«Chamam-lhe uma selecção nacional sem pátria. Aliás, foi feito um documentário nesse ano em que estiveram na primeira divisão, documentário que concorreu a festivais e recebeu um prémio. Nesse ano, a equipa subiu administrativamente, mas estava preparada para jogar na II Divisão e não tinha dinheiro para mais», recorda o treinador português.

O Assyriska subiu e desceu de divisão no ano seguinte, mas conquistou adeptos em cerca de oitenta países. Existem mais de cinco milhões de assírios espalhados pelo Mundo. José de Morais ficou na história: «Não tinha jogadores com experiência de I Liga, mas ainda assim fez bons jogos, mesmo tendo regressado à segunda divisão. Aliás, o mesmo grupo de jogadores, em 2006, desceu à terceira divisão. Ou seja, o trabalho teve a qualidade possível e, como prova disso, posso dizer que o Assinkirya endossou-me um convite há menos de duas semanas, para tentar nova subida ao escalão principal, mas tive de declinar.»

Arábia Saudita, Iémen e Tunísia

«Depois da Suécia, estive em três clubes da Arábia Saudita (Al Faysali, Al Shabab e Al Hazem). Seguiu-se um convite para trabalhar no Stade Tunisien, mas entretanto tive a oportunidade de assumir o comando da selecção do Iémen. Em termos de currículo, seria um elemento bom e decidir aceitar. Infelizmente, as expectativas foram defraudadas, não havia confianças. Senti muitas intromissões nas minhas escolhas. Acabei por forçar a minha posição e sair», vai contando o técnico.

No mês passado, José de Morais regressou à Tunísia para orientar o Esperance de Tunis, líder do campeonato. Um desafio de peso. «A equipa tem estado a jogar em quatro frentes mas desenrascou-se bem. Consegui aumentar a vantagem na frente para três pontos e, com a vitória de 6ª feira, passou para seis, mas o 2º classificado ainda vai jogar. Este é o maior clube da Tunísia, joga perante 40 mil espectadores e rivaliza com o Al-Ahly (Egipto) em termos de notoriedade no Norte de África», sintetiza.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Alvaro e Falcao chegam à Luz: «Benfica é um grande clube»

Alvaro Pereira e Radamel Falcao vão pisar o relvado do Estádio da Luz neste domingo. Com cinco meses de atraso. Os dois jogadores entraram na órbita do Benfica durante o último defeso, chegaram a falar como futuros reforços encarnados, mas voaram para o Dragão.

O clássico de domingo servirá para Alvaro Pereira e Falcao conhecerem, finalmente, a águia Vitória. Contudo, esta não mostrará o seu esplendor nos braços do uruguaio e do colombiano. O Benfica encetou negociações mas não chegou a bom Porto. O clube da Invicta, num ápice, contratou os dois. Shaffer e César Peixoto, Weldon e Keirrison colmataram as lacunas na Luz.

«Não sei se o acordo está perto ou longe. Só sei que os clubes falaram. Só posso dizer que o Benfica é um grande clube, que qualquer jogador gostaria de representar», disse Alvaro Pereira ao Maisfutebol, a 18 de Maio. A 4 de Junho, o F.C. Porto desviou o lateral, a troco de 4,5 milhões de euros por 80 por cento do passe! «Assinei em quatro minutos», disse o defesa, com a marca portista.

«O Benfica é um clube muito grande»

Radamel Falcao seguiu o mesmo trajecto. Voou sobre o Estádio da Luz e aterrou no Porto. «O Benfica é uma equipa muito grande, que disputa as provas europeias. É um orgulho que esteja atrás de mim. Claro que gostaria de jogar no Benfica», dizia o avançado a O Jogo, a 1 de Julho.

«Dadas as indefinições manifestadas pelo jogador e seus representantes, o Benfica informa que Radamel Falcao deixou de fazer parte dos planos da equipa», surpreendia o Benfica, a 7 de Julho.

Uma semana depois, o F.C. Porto anunciava a contratação do avançado. 3,9 milhões de euros por 60 por cento do passe. «Não entendo o que pretendiam. Se fosse para o Benfica ia ganhar menos do que ganho no River», revelou Falcao ao Maisfutebol.

Obrigado ao Benfica, resposta de Rui Costa

Pinto da Costa não perdeu a oportunidade de picar o adversário, com os primeiros golos de Falcao de azul e branco. «Eu não desviei o Falcao, ele voa para onde quer e quis o Dragão. Não há dúvida de que os olheiros do Benfica tiveram grande mérito na vinda deste jogador para o FC Porto», ironizou o presidente (1 de Outubro).

Rui Costa respondeu à letra: «Não percebo bem se é um elogio à nossa prospecção ou se é um puxão de orelhas à prospecção do F.C. Porto. Gosto muito de falar do Benfica. Não sonho com o F.C. Porto todos os dias.» Em Julho, Pinto da Costa aplaudira ainda as contratações de Shaffer, classificando-o como «um grande lateral esquerdo», e de Saviola.

Cardozo e David Luiz, o lado B

As trocas e baldrocas entre Benfica e F.C. Porto não são de hoje. Alvaro Pereira e Falcao chegaram à Invicta, mas o clube encarnado segurou dois talentos que foram cogitados pelos portistas, no passado recente.

O Maisfutebol anunciou, em Junho de 2007, que o F.C. Porto estava fortemente interessado em Óscar Cardozo (Newell's Old Boys). O avançado mostrava-se entusiasmado: «É um clube extremamente atraente. O Porto é uma grande formação europeia e ir para lá é, claro, uma ideia que me agrada.» Dias depois, assinava pelo Benfica.

David Luiz foi outro caso de disputa renhida. Pelo menos, a julgar pelas palavras do jogador. «É verdade, o F.C. Porto quis contratar-me, mas optei por permanecer no Benfica, um clube que me recebeu muito bem e que aprendi a adorar durante estes últimos meses. A proposta do F.C. Porto até era melhor em termos financeiros, mas preferi continuar a evoluir no Benfica», garantia o central, em entrevista a O Jogo, em Jullho de 2007.

Resumindo, e para que não se perca: Alvaro Pereira e Falcao são do F.C. Porto, Cardozo e David Luiz do Benfica. Serão essas as cores que irão vestir no clássico do ano, no Estádio da Luz, neste domingo. O resto é circo. O circo do futebol.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

David Luiz vs Hulk: Vitória comum num duelo com faíscas



O Jogo publica a 17 de Dezembro a mesma reportagem. Não foi copiado, eles tinham falado com o mesmo treinador no sábado. E ficou bem feito, por sinal.

David Luiz e Hulk irão protagonizar o duelo mais escaldante do Benfica-F.C. Porto, o Clássico do próximo fim-de-semana, no Estádio da Luz. Perspectivam-se faíscas no cruzamento de dois jogadores que disputam cada lance como se estivessem ruma corrida rumo ao infinito. Em comum, um passado no Vitória da Bahia, a partilha do mesmo centro de treinos, as sessões em conjunto no ano de 2003.

Nos treinos dos juvenis contra os juniores do Vitória da Bahia, em Salvador, João Paulo Sampaio observava um médio defensivo sem grande futuro e um organizador de jogo com potencial para explodir a qualquer momento. Hoje em dia, quem imaginaria que David Luiz e Hulk partilharam o mesmo relvado, foram até colegas de equipa em algumas sessões, ambos com funções no sector intermediário?

João Paulo Sampaio, coordenador das camadas jovens do clube baiano, revela ao Maisfutebol a história: «Lembro-me que David Luiz ainda era juvenil e veio fazer alguns treinos aos juniores, onde estava o Hulk. Curiosamente, o David Luiz jogava como volante e o Hulk estava numa fase de transição, jogando como meia. Para além disso, moravam no mesmo prédio, no nosso centro de treinos, porque eram ambos de fora da Bahia. Devem ter até jogado na consola juntos, como os meninos fazem aqui», recorda o técnico.

«Esse duelo vai dar faísca»

David Luiz e Hulk realizaram treinos em comum, não mais que isso. O portista chegou à equipa profissional e partiu num ápice para o Japão. O defesa encarnado, um ano mais novo, ficou no Vitória da Bahia até 2006, antes de seguir para o Benfica. Agora, reencontram-se para um duelo que divide os elementos do clube canarinho.

«Como disse, muitas vezes treinaram ao mesmo tempo, às vezes jogavam os juniores contra os juvenis, portanto já devem ter surgido uns atritos nessa altura. São dois jogadores com muito ímpeto. Mas agora estão muito diferentes, cresceram e vão continuar a crescer. Não dá para torcer por um deles. Vamos apostar num empate», brinca João Paulo Sampaio.

Hulk parte dos flancos para o centro do terreno. David Luiz surge no eixo mas faz dobras com regularidade. Choque frontal na Luz: «Como se diz aqui no Brasil, acho que isso vai dar faísca. O Hulk tem velocidade, um grande pontapé, leva vantagem contra defesas lentos. Mas não é o caso do David Luiz. Ele é muito rápido e joga muito bem em antecipação. Vai ser um duelo bem interessante.»

David perto da dispensa, Hulk levou do treinador

João Paulo Sampaio acrescenta pormenores deliciosos à história da águia e do dragão, durante a conversa com o Maisfutebol. O técnico lembra, por exemplo, que David Luiz esteve perto de ser dispensado do Vitória da Bahia, quando chegou a júnior.

«Como disse, ele nos juvenis era volante, jogava no meio-campo defensivo, mas tinha dificuldades. Tanto que chegou a ter o atestado de liberação passado, ia embora. Mas lá decidi experimentar o David como central e ele fez um grande ano. Não tem medo de sair a jogar e isso às vezes deixa-nos com o coração nas mãos. Fez isso num torneio que vencemos na Holanda, contra o PSV Eindhoven. Também é demasiado duro, por vezes, mas nunca teve problemas de comportamento comigo», frisa o treinador brasileiro.

A história de Hulk é ligeiramente diferente. Começando pelos problemas com João Paulo Sampaio, precisamente. «Num jogo em Feira da Santana, ele começou a mandar vir, a abrir muito os abraços. Fiquei irritado. Cheguei ao balneário, derrubei a porta e fui para cima dele. Não pode fazer isso com a comissão técnica. Mas ele entendeu e pediu desculpa. Melhorou muito. Era lateral, esteve uns tempos como meia e explodiu como atacante. Tanto que fez dois jogos na equipa principal do Vitória e foi logo vendido para o Japão», remata o coordenador das camadas jovens do Vitória da Bahia.

Cardozo e Belluschi: memórias do jogo da vida deles

14 de Agosto de 2006, 2ª jornada do Torneio de Abertura. O Monumental veste fato de gala para aplaudir o River Plate, no regresso de Ariel Ortega. O Newell's Old Boys, que vendera o Burrito e um tal de Belluschi, reformulou o ataque com dois paraguaios desconhecidos. Um deles, Oscar Cardozo. No final da partida, choveriam elogios para Tacuara e o Samurai.

Foi um dos melhores jogos do torneio. A memória daquele 3-3, de um Newell's renascido das cinzas após a debandada das estrelas, de um River Plate com um Ortega a milhas do seu real valor, perdura até aos dias de hoje.

Cardozo chegara à Argentina sem rótulo. Neri Pumpido, o treinador que já foi guarda-redes de topo, recorda ao Maisfutebol: «O Cardozo não era conhecido, eu mesmo só tinha visto algumas jogadas em vídeo, nem sequer jogos inteiros. Mas esse talvez o seu melhor jogo de sempre no Newell'. Surpreendeu todos com o seu remate.»

O avançado do Benfica marcara um golo na primeira jornada. Nesse dia, no poderoso Monumental, dobrou a parada e silenciou os «hinchas» do River. O segundo golo, de livre, espantou a crítica.

Fernando Belluschi, escondido na sombra de Ariel Ortega, recebeu um par de palmas antes do apito inicial. No River Plate, Sambueza, Marcelo Gallardo, Ernesto Farías. O médio do F.C. Porto, o Samurai, disputado por River e Boca Juniors no defeso, concentrava poucas atenções. Mas foi ele a salvar Los Millionarios.

Salcedo, o outro paraguaio, inaugurou o marcador. Silêncio no Monumental. Ortega, a estrela, não cintilava. Eis que surge Belluschi, da direita para o centro, passe a rasgar, queda de Farías na área. Penalty convertido por Gallardo.

O Samurai empurrava o River Plate. Ao minuto 22, uma jogada marcante. Belluschi toca para a frente, Ortega domina na área. O médio portista, em velocidade, rouba a bola ao companheiro de equipa, a estrela da companhia. Um ultraje!

El Burrito fica a ver. Simulação, um adversário pelo caminho, remate de pé esquerdo, golo! Belluschi sangra por dentro. Junta as mãos e pede desculpas aos adeptos do Newell's, o seu clube de sempre. Bonito.

«O Belluschi foi vendido semanas antes de chegar o Cardozo ao Newell's. Marcou um golo e sempre achei que é um rapaz com muita dinâmica», elogia Pumpido.

O Monumental respirava de alívio, mas faltava o Tacuara. Em dois minutos, Cardozo apresentou-se à Argentina. Foi o primeiro bis no país das Pampas. A confirmação de um talento desconhecido. Um golo de cabeça, ao minuto 44, um aperitivo antes do prato principal. Logo depois, uma bomba de livre, surpreendendo German Lux. 2-3 para o Newell's.

Aquela patada tornava-se marca registada.

Logo após o intervalo, em livre cobrado por Belluschi, Tuzzio marca na primeira vez em que toca na bola. 3-3, 46 minutos de um «partidazo», assim mesmo, em argentino. Sim, em espanhol, claro.

Termina o River Plate-Newell's, o jogo do ano, sem golos de Farías ou da estrela Ortega. O Burrito continua a ser acarinhado, cercado por um batalhão da imprensa. Para Cardozo e Belluschi, os homens do dia, um único jornalista. O avançado, jovem e acanhado, pouco diz. O médio fala da traição ao Newell's, o seu Newell's, o clube que viu nascer Leo Messi. Sabe que será perdoado.

Veja o vídeo de um jogo marcante nas carreiras de Oscar Cardozo e Fernando Belluschi. No Estádio da Luz, sentirão emoções novas, suarão a camisola. Mas nunca esquecerão o Monumental, aquele 14 de Agosto de 2006. São oito minutos deliciosos, Millionários contra Leprosos. Vale bem a pena.